O enganado
Luis Fernando Verissimo
Alguma coisa ia lhe acontecer. Trinta e sete anos, saúde perfeita, torcedor do São Paulo, ganhando dinheiro como nunca - alguma coisa estava errada. O mundo todo em crise, e ele ali, sem um problema. Ou com um problema só: a ausência de problemas.
Alguma estavam lhe preparando. Ia ter um enfarte fulminante. Perder o emprego. Perder uma perna. Estava tudo bem demais. Ele era o único homem da sua idade que conhecia com os quatro avós ainda vivos! Aquilo não era natural. Alguma estavam lhe preparando. E não demoraria.
Alguém sentou ao seu lado no bar e disse:
- Você não me conhece...
Era um homem bonito, mais moço do que ele. O homem estendeu a mão e se apresentou.
- Eu sou o Carlos.
- Muito prazer...
- Sua mulher deve ter lhe falado a meu respeito.
- Não, não falou.
O homem fez uma cara de desapontamento. Disse:
- Ela me prometeu que lhe contaria tudo. Assim fica mais difícil...
Ele sentiu, com alívio, que sua tragédia chegava. Então era isso. Sua mulher o enganava. Era melhor do que um enfarte.
- Quem sabe você mesmo me conta tudo, Carlos?
- Bom, não há muito para contar. Nos conhecemos...
- Onde?
Estava tomado por uma espécie de volúpia de sofrimento. Queria saber tudo. Queria ser arrasado pelos detalhes.
- Num shopping.
Ele gemeu baixinho. Perfeito. Nas suas intermináveis tardes fazendo compras, enquanto ele trabalhava, ela também namorava. Carlos continuou:
- Aconteceu. Não pudemos evitar. Ela me ajudou a escolher uma gravata, começamos a conversar e... Aconteceu.
- Há quanto tempo é que vem acontecendo?
- Três meses.
- Motéis?
- Às vezes. E no meu apartamento, quando mamãe não está.
Ele tentou visualizar sua mulher num motel com aquele homem. A mãe dos seus filhos numa cama redonda e refletida no espelho do teto com outro. O banho de óleos. Teria banho de óleos? As tardes de loucura e prazer. Era demais. Ele não aguentava! Pediu mais detalhes.
- A iniciativa foi dela?
- Não, minha. Ela resistiu bastante.
- Não tente me consolar - suplicou ele.
- Decidimos que você precisava saber. Ela lhe respeita demais. Aceita o divórcio, a separação dos filhos...
Sim, sim. Os filhos. Teria de ser pai e mãe para eles. Apoiá-los para que vencessem o trauma da separação. Sua vida seria um inferno dali para diante. Não se suicidaria para poupar as crianças e sempre protegeria o nome da mulher na frente delas. Mas por dentro estaria destruído.
- A Cláudia ia lhe falar sobre nós ontem, mas acho que não teve coragem. Ela me contou que você vinha sempre a este bar por esta hora e...
- Que Cláudia?
- Como que Cláudia? A sua mulher.
A mulher dele se chamava Sónia.
- Que foi? - perguntou Carlos.
- Nada, nada...
- Escute, Raul. Você deve reagir. Não é o fim do mundo. Eu sinto muito, mas divórcios acontecem a toda a hora. Vá para casa, converse com a Cláudia...
- Olhe aqui. Eu não preciso dos seus conselhos, entendeu? Você já fez a sua parte, destruindo o meu lar, destruindo a minha vida. Agora é comigo. Dê o fora antes que eu...
Carlos deu o fora. Ele chamou o barman e pediu outro uísque. Duplo. Era a primeira vez que repetia o uísque desde que começara a frequentar o bar. O barman estranhou:
- Problema, seu Mário?
Ele não se conteve. Quase soluçando, com os olhos cheios de lágrimas, respondeu:
- Acabei de saber uma coisa terrível. Finalmente!
Domingo, 11 de janeiro de 2009.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.